Riacho das Almas
Na noite passada, apenas um olho chorou. O coração quase se perdeu na Estrada das Pedras, ao atravessar a ponte que ligava os dois mundos - o das Trevas, onde habitavam os répteis e os artrópodes, e o da Luz, onde não havia ninguém.
Esta noite, apenas o outro olho chorou, ao atravessar de volta a ponte, despertando de um sonho, retornando do Sol.
Então os olhos observaram nas pedras manchas de sangue. As pernas tremeram e quase se dobraram, mas eu resisti e segui em frente em meu caminho, em meio à escuridão daquela estrada, guiado apenas pela luz do luar...
...Você seria uma daquelas pessoas sem alma? Meus filhos seriam as pedras?
...Talvez eu morra, chorando de tanta tristeza, mas me recuso a acreditar que tudo isso que agora estou vivendo seja de fato a Única Realidade...
Vivendo num mundo denso
onde por incrível que pareça
as pessoas se dizem felizes
Um mundo denso
em que poucas são as pessoas
que me olham nos olhos
Onde são poucas as pessoas
que me estendem a mão
para um contato
que perguntam
"Como está?"
"Como foi o seu dia?"
E onde menos ainda
são as que se interessam pela resposta...
Um mundo muito denso
do qual um dia fui expulso
e com o qual, hoje
apenas consigo me relacionar
de forma ALIENADA
porque me causa estranheza
Antes, eu diria REPULSA
mas hoje, sinto apenas indiferença
Espero que chegue o dia
em que possa sentir
um mínimo de COMPAIXÃO
pois já o compreendo
Um mundo denso...
Muito denso
com muito poder
e pouco amor
muita individualidade
muito espaço e pouco tempo livre
muito espaço e pouco tempo livre
pouca convivência e sinceridade
Muitas paredes e nenhum alicerce...
SAPATEIRO
(Chapéu Mexicano)
Não desejo mais nada
Ser apenas o sapateiro
Gastar meu tempo
Num outro corpo
Cheirando cola
Em Qualquer Lugar
Ser um pássaro
Ou um sapo tanto faz
Uma câmera Kodak
Uma Kombi ou uma Vespa
Ir pro México
Ou ficar aqui mesmo
Tanto faz
É tudo a mesma coisa
É tudo tão perto
Quando se está louco
Um jogo de azar e poder
Consumir pra depois sumir
O sapateiro...
Era apenas mais uma abstração
em minha vida
Não valia a pena matar a velha...
SAPATEIRO
(Chapéu Mexicano)
Não desejo mais nada
Ser apenas o sapateiro
Gastar meu tempo
Num outro corpo
Cheirando cola
Em Qualquer Lugar
Ser um pássaro
Ou um sapo tanto faz
Uma câmera Kodak
Uma Kombi ou uma Vespa
Ir pro México
Ou ficar aqui mesmo
Tanto faz
É tudo a mesma coisa
É tudo tão perto
Quando se está louco
Um jogo de azar e poder
Consumir pra depois sumir
O sapateiro...
Era apenas mais uma abstração
em minha vida
Não valia a pena matar a velha...
Cornucópias
Olhando a complexidade dos arranjos florais
Costurando sonhos
pensava
"Está tudo certo..."
"...contanto que eu não voltasse nunca mais"
(ficava subentendido)
(ficava subentendido)
bjs aos irmãos do ewa
..E, depois, o labirinto do belo – e o mais belo dos labirintos: a Arte. Sim, ela também tem todas as características de um labirinto: a ilusão, o ilimitado, o fechamento...
A ilusão.
As obras no entanto existem. São coisas, tão reais quanto todas as coisas, tão verdadeiras, e mais familiares ainda por terem nascido da mão do homem. Um quadro é menos misterioso do que uma concha. Mas a ilusão está em outra parte. Não na obra: real. Não necessariamente no artista: ele conhece o trabalho de suas mãos, e sabe o sonho que o guiou. A arte é um trabalho, antes de ser uma religião, um ofício antes de ser um mistério. O artista, que mede seu esforço por seu cansaço, sabe-o muito bem. “Dez por cento de inspiração, noventa por cento de transpiração...” E Poussin explicava assim suas obras-primas: “Não desprezei nada...” O gênio se torna modesto pelo trabalho. Mas o espectador ocioso esquece esse labor, ou o ignora, e a obra-trabalho se torna obra-milagre. A lisão nasce, assim, da contemplação preguiçosa. Ela nasce e logo se desdobra. Como a política, a arte é produção e duplicação de ilusões.
Primeira ilusão: a objetividade e a universalidade do belo. Esta obra que admiro sem compreender é de tamanha beleza que, parece-me, se impõe e se imporá a todos. A beleza da obra é vivida como universal, eterna, absoluta – e presente, realmente, na obra que amamos. Kant disse o essencial a esse respeito. Achar que uma coisa é bela não é reconhecer apenas o prazer que ela proporciona (porque, nesse caso, ela seria simplesmente agradável); é pretender à objetividade e à universalidade desse prazer. “Quando ele diz que alguma coisa é bela, ele atribui aos outros a mesma satisfação; não julga apenas para si; mas para outrem e fala, então, da beleza como se ela fosse uma propriedade das coisas. Por isso diz: a coisa é bela...Por isso, não se pode dizer: o gosto não existe...” Mas essa satisfação (com pretensão) universal e objetiva, por ser puramente estética, (“sem conceito”), é condenada a permanecer subjetiva. “O juízo de gosto determina seu objeto (enquanto beleza) do ponto de vista da satisfação, pretendendo à adesão de cada um, como se fosse objetivo...Mas não é assim...” Sabemos bem disso, e, sem dúvida, hoje mais ainda (graças à evolução da arte) do que no tempo de Kant: uma pessoa pode achar bela uma obra que desagradará a seu amigo, o qual se entusiasmará por outra, que deixará o primeiro indiferente.
Nem todo mundo gosta de Burroughs, Picasso ou Kandinsky, Kraftwerk, Suede ou King Crimsom...
